Entrevista

Fintech e Bitcoin: Saiba mais sobre o uso da tecnologia nas finanças

Já falamos aqui no blog sobre a moeda virtual Bitcoin e sobre Fintech, empresa que une finanças à tecnologia.

Os dois assuntos estão em alta e ainda geram muitas dúvidas. Para esclarecer um pouco mais, conversamos com o Gabriel Aleixo, Pesquisador e Coordenador de Projetos no Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio (ITS Rio). Confira a entrevista!

Stone Blog: O que é o Bitcoin e como ele funciona?

Gabriel Aleixo: Trata-se de uma tecnologia que conjuga a geração e a transmissão de unidades digitais chamadas bitcoins à capacidade de manter um registro permanentemente sincronizado entre os usuários que integram a rede, responsável por determinar quantos bitcoins cada um deles possui naquele momento.

Como essas unidades (bitcoins) adquiriram valor monetário – há pessoas dispostas a trocar moedas nacionais como o dólar ou o real por bitcoins – tornou-se viável na prática uma significativa parte da visão original do projeto: Seu funcionamento como meio de pagamento descentralizado. Ou seja, ele não tem a mesma dependência de intermediários e agentes de confiança dos sistemas tradicionais, a exemplo dos bancos ou startups do meio de Fintech.

Grosso modo, em uma remessa de valor entre duas pessoas que não se conhecem feita pelo protocolo Bitcoin é como se a quantia fosse enviada diretamente de um indivíduo ao outro, sem a necessidade de confiança numa empresa que faria a intermediação desse processo.

Stone Blog: E o que tem de mais inovador?

Gabriel Aleixo: Por conta dessa característica, de não precisar de intermediários, os riscos e os custos são substancialmente reduzidos para alguns casos, fazendo com que o Bitcoin seja uma opção prática e vantajosa.

Lançado em Janeiro de 2009, o Bitcoin segue ganhando tração em vários mercados, e uma grande tendência é a utilização dessas unidades digitais e do registro público de posse delas (os dois pilares da tecnologia) em novas aplicações. Assim como há hoje o uso como meio de pagamento, já há experimentos no sentido de usar bitcoins em sistemas de votação ou compra e venda de ações, tudo de maneira descentralizada. O que temos até o momento, provavelmente, é só o começo diante do potencial do que estamos falando.

Stone Blog: Você acredita que os bancos e outras empresas podem se aproveitar dessa tecnologia?

Gabriel Aleixo: Há tentativas em curso nesse sentido. As instituições financeiras tradicionais vêm percebendo em larga escala o potencial inovador do Bitcoin e sabem que precisam atualizar seus sistemas a fim de integrá-los melhor ao futuro da economia digital (como a internet das coisas) e torná-los mais ágeis, versáteis e baratos.

O Bitcoin já funciona muito bem como um sistema autônomo desde 2009 e, embora haja desafios técnicos e de governança para seu crescimento em escala, a tendência é que permaneça como um dos maiores e mais independentes sistemas do campo. No entanto, a tecnologia que foi criada para dar base a seu funcionamento, a qual ficou posteriormente conhecida como “blockchain”, está sendo testada por consórcios de bancos e até mesmo pela NASDAQ nas mais variadas aplicações. Algumas delas fazem uso da rede pública e “agnóstica” (no sentido de não estar presa a qualquer empresa ou instituição) do Bitcoin e outras buscam criar redes internas que operem de forma parecida com o Bitcoin. Embora, na minha visão, o segundo caso possa talvez limitar a utilidade para o usuário final, é natural que alguns modelos de negócio prescindam de total controle sobre os sistemas que operam e por isso estão sendo testados. A resposta final a isso creio que só o tempo e o mercado poderão oferecer.

Stone Blog: Já é possível comprar muitas coisas com bitcoins?

Gabriel Aleixo: Sim, o site CoinMap permite conhecer diversos comércios físicos e eletrônicos que aceitam bitcoins como forma de pagamento. O Brasil também já possui profissionais e negócios dos mais variados campos trabalhando com Bitcoin. Dentre os principais destaques internacionais, creio que valha citar as gigantes da tecnologia Dell e Microsoft que já aceitam bitcoins como pagamento em alguns de seus mercados.

Stone Blog: Como funciona a variação de preço na cotação de 1 bitcoin?

Gabriel Aleixo: Basicamente, lei da oferta e da procura. Não há uma taxa fixa de câmbio e nem um lugar ou site oficiais para comprar bitcoins, isto é, trocar seus reais ou dólares por eles. Existem na verdade dezenas de websites e o Exchange War mostra a maioria deles, mundo afora, algumas delas no Brasil, que no jargão do meio são conhecidos como corretoras ou “exchanges” (casas de câmbio), responsáveis por aproximar quem tem bitcoins e quer trocar por reais daqueles que possuem a moeda nacional e querem adquirir bitcoins com elas.

Em geral, há uma lista com ordens de compra e outra com ordens de venda, cada uma listando diferentes preços e quantidades desejadas. Quando há o casamento de um comprador com um vendedor a troca é efetuada e, então, tem-se uma cotação de referência (de 1 bitcoin valendo X dólares, por exemplo) que pode ser distinta a cada instante, com base em todas as negociações do tipo sendo realizadas no mundo. De forma simplificada, algumas das variáveis que afetam o preço do bitcoin são análogas àquelas que impactam o valor da ação de uma empresa ou da taxa de câmbio. Ou seja, se a tecnologia passa a ser utilizada por mais pessoas ou seu potencial é reconhecido por uma grande empresa essas coisas tendem a elevar a cotação. Caso haja algum momento de dificuldade técnica na rede ou um impasse sobre como atualizar os softwares que mantêm o sistema esses fatores podem conduzir a uma queda no valor de 1 bitcoin. Naturalmente, é mais complexo do que isso, mas esses exemplos auxiliam na compreensão.

Stone Blog: O que é Fintech?

Gabriel Aleixo: FinTech é um abreviação em inglês para a expressão “financial technology”, ou “tecnologia financeira” em português, a qual usualmente busca designar o conjunto de inovações trazido por novas aplicações nas áreas de meios de pagamento, investimentos, produtos financeiros, etc.

Stone Blog: Qual a diferença de uma fintench para uma startup?

Gabriel Aleixo: Na maioria dos casos, uma fintech faz parte de um subgrupo dentro do campo das startups.

Embora o termo startup possua variados entendimentos, creio que a relação que Paul Graham, investidor de risco norte-americano e fundador da maior aceleradora de empresas do mundo (Y Combinator), estabelece em um de seus principais artigos seja muito elucidativa: “startup = crescimento”. Ou seja, startups são empresas nascentes marcadas pela capacidade de um amplo crescimento em escala, num prazo relativamente curto e em geral com menos recursos iniciais do que negócios tradicionais. Ao contrário do que a maioria acredita, uma startup não precisa, a meu ver, estar necessariamente relacionada a tecnologia, embora seja o caso da maioria delas, diante da quebra de fronteiras e das vantagens logísticas propiciadas pela economia digital.

Logo, esclarecendo a pergunta inicial, uma “fintech”, utilizando o termo geral para denominar uma empresa que trabalhe neste campo, será sinônima de uma startup atuante na área de tecnologia financeira com foco em crescimento em escala. Caso o foco da fintech seja em um modelo não-acelerado de crescimento, será então sinônima de uma empresa tradicional atuante no campo de tecnologia financeira. Em ambos os casos, contudo, busca-se um aumento na eficiência dos negócios já existentes nessa indústria, principalmente em relação a custos e prazos.

Stone Blog: Você acha que os bancos correm perigo com as fintechs (que eles vão deixar de existir)?

Gabriel Aleixo: No sentido de deixar de existir, creio que não. Bancos são instituições centenárias e que desempenharam papéis distintos ao longo da história. Naturalmente, alguns deles, quando providos por parte desses bancos, tornaram-se obsoletos ou ineficientes com o advento de competidores até mesmo menores mas baseados em modelos ou tecnologias inovadoras. É essa a filosofia das “fintechs”, não importa tanto o seu tamanho, mas sim o seu diferencial competitivo. Creio que se trate de uma tendência no seguinte sentido: Os bancos irão assimilar parte dessas mudanças, adquirindo startups do ramo de fintech ou desenvolvendo internamente serviços similares.

Durante esse processo, penso que haverá dois grandes desafios. O primeiro consiste na diferença em timing e cultura corporativa entre o meio das startups e dos grandes bancos tradicionais, pois nem sempre os gestores desse segundo grupo estão focados no mesmo ritmo de inovação de seus concorrentes do ecossistema empreendedor. O segundo desafio é a mudança cultural representada pelos nativos digitais (jovens que já cresceram com internet), já que muitos deles compreendem significativamente melhor o funcionamento de aplicativos para smartphones do que certos trâmites bancários, a ponto de bancos sequer fazerem parte substancial da vida de muitos deles em economias mais avançadas como a norte-americana.